|
|
|
|
|
|
|
Literatura: Um olhar aberto para o mundo |
|
Nelly Novaes Coelho (USP / novembro / 2000) |
| “Atualmente (neste início de milênio) os corpos humanos estão em estado de rebelião cultural. Nas sociedades tecnológicas - toda a Europa e particularmente os Estados Unidos - emerge hoje em dia uma nova espécie de ser humano: o mutante, que aumentará pouco a pouco o seu domínio na sociedade e criará, ao mesmo tempo, uma nova cultura para ela.” (Thomas Hanna, 1972) |
Neste limiar de século e de milênio, estamos assistindo ao final de um extenso período da cultura humana (Era Romântica/ séc.XVIII- XIX) e, simultaneamente, estamos vivendo (conscientemente ou não) uma acelerada mutação que está engendrando uma nova cultura, radicalmente diferente da anterior, e exigindo a formação de uma nova mente.
Sentimo-nos perdidos diante dessa avalanche de mudanças em todos os níveis da sociedade, porque ainda não nos foi possível descobrir racionalmente o encadeamento de todos os elos dessa transformação em curso. Talvez fique mais fácil entendermos a natureza ou o sentido desse processo que estamos vivendo, se nos valermos do pensamento de O. Spengler (A Decadência do Ocidente. 1818/1923), ao definir cultura e civilização. Para Spengler, toda evolução-transformação da humanidade e da história se dá inicialmente na esfera da cultura (esfera abstrata, onde se geram os valores de comportamento, as idéias, ideais, sonhos, projetos de vida, etc.) e só depois de amadurecida essa “nova cultura”, que põe em questão a tradição ou civilização herdada, é que surge uma nova civilização (uma nova ordem, um novo sistema social-político-econômico que se impõe a todos os cidadãos).
Estamos hoje vivendo em pleno “ponto de mutação” (Fritjof Capra), daí a fragmentação, o desnorteamento que caracterizam o mundo que nos rodeia e que precisamos aprender a conhecer, para nele podermos agir. A grande revolução-evolução, hoje vivida por toda humanidade, está acontecendo na esfera da cultura (da mente, do espírito, do pensamento, da reflexão, do ser interior) e, evidentemente, em conflito com a esfera da civilização em que ainda predominam as formas consagradas ontem, mas já superadas pelas novas formas emergentes com a revolução tecnológica-cibernética que vem mudando a face do mundo, pela anulação das distâncias geográficas e da ruptura de todos os antigos limites (espaciais, temporais, mentais, éticos, estéticos...)
Conforme Edgar Morin, há em processo uma “segunda industrialização”: a que se processa nas imagens e nos sonhos.
| “Uma segunda colonização, não mais horizontal, mas vertical, que penetra na grande reserva que é a alma humana. A alma é a Nova África que começa a agitar os circuitos dos cinemas. Um prodigioso sistema nervoso se constituiu no grande corpo planetário: as palavras e imagens saem aos borbotões dos teletipos, das rotativas, das películas, das fitas magnéticas, das antenas de rádio e de televisão; tudo que roda, navega, voa, transporta jornais e revistas; não há uma molécula de ar que não vibre com as mensagens que um aparelho ou um gesto, tornem logo audíveis e visíveis. A segunda industrialização passa a ser a industrialização do espírito; a segunda colonização passa a ser a da alma.” (Morin. 1962) |
Essa revolução, que o sociólogo francês analisa nos anos 60, continua a se expandir. Prosseguindo em seus estudos, Morin nos anos 90 detecta uma “terceira cultura” em formação:
| “Uma cultura cyber* está em vias de se expandir, mesmo que só possa ser alcançada por alguns privilegiados. Trata-se de uma revolução radical que marca o surgimento da sociedade pós-industrial e que implica no nascimento de um novo pensamento. [...] A cultura cyber é simultaneamente destruição e gênese. Essa cultura se unirá com o mito fundador da árvore do conhecimento.” (Morin. 1998) |
-----------
* “Cultura cyber” ou “cyberespace”, –espaço cibernático–, expressão cunhada por William Gibson (autor da novela Neuromancer. 1991) para designar o mundo digital que vem sendo construído pelas redes de computadores, como a Internet. A expressão ganhou vida em que os participantes, sem presença física, podem conversar, colaborar, manipular objetos e navegar pelas informações espalhadas pelos quatro cantos do mundo.
Por paradoxal que pareça essa afirmação, de que estes nossos tempos cibernéticos (cultura cyber) sejam simultaneamente tempos de “destruição e gênese”, já é ponto pacífico a hipótese de que no caos atual já está sendo engendrado um novo cosmo (ou nova ordem). E que, nele, será descoberta a nova “árvore do conhecimento”.
É dentro desse cyberespace, desse fascinante mundo virtual, que na esfera da educação e do ensino, o problema Leitura/Literatura vem crescendo em importância. E por quê ? É o que muitos se perguntam. Inclusive, por duvidarem de que o ato-de-ler literatura ainda tenha lugar no nosso cotidiano real, totalmente “sitiado” pelos multimídias, – os construtores do mundo virtual. A possível resposta a essa questão é o fato de que a urgente conscientização do ser (em relação a si e ao mundo que o rodeia) é fenômeno interior. Produz-se no invisível da mente ou do espírito. E como sabemos, a imagem, o visual...puxam a nossa atenção para fora, impedem a concentração do eu. Enquanto a palavra (a leitura) puxa a nossa atenção para dentro. É nesse sentido que entendemos a literatura com um “olhar aberto para o mundo”, mas que interage com esse mundo através de uma experiência interior (e não, meramente epidérmica, exterior). E, como sabemos, só as experiências interiores realmente formam a mente ou a personalidade do indivíduo.
w A Palavra em confronto com a Imagem
Muito se tem perguntado se a palavra não estaria superada pela visualidade, velocidade e fragmentação transformada em espetáculo, que marcam esta nossa era da imagem. Todos nós sabemos que aí está um dos “nós górdios” do nosso tempo. Está mais do que evidente que estamos vivendo em plena civilização da imagem. Quer dizer, somos trabalhados diariamente, de manhã à noite, pela imagem, pela comunicação direta, visual, de contato direto, rápido...Mas há já algum tempo se vem descobrindo que só esse contato não basta para a dinamização interior do indivíduo, para o desenvolvimento de suas potencialidades, de maneira plena...Para esse estímulo, a leitura é fundamental. É o contato, a interação íntima do eu com a palavra escrita, com o texto, que o leva a desenvolver aquilo que o define como ser humano: a sua própria expressão verbal, sua fala, sua linguagem, sua própria palavra, sem a qual não há nenhuma relação profunda entre o eu e os outros que o rodeiam.
Inclusive a leitura da imagem exige a palavra, a linguagem verbal, pois não existe imagem que possa ser compreendida sem ser “pensada”, isto é, transformada em palavras. Na verdade, hoje insiste-se tanto na importância do convívio da criança com a literatura infantil, porque a leitura deixou de ser vista como simples processo de decodificação dos signos lingüísticos, para ser descoberta como um fecundo meio de conhecimento de mundo. O texto ou o livro de literatura, adequado a cada categoria de leitor (pré-leitor, leitor iniciante, leitor em processo, leitor fluente e leitor crítico) deve servir como ponto de partida para que, quem trabalha com a criança, possa verbalizar as experiências de vida que ela própria vive (ou pode viver), desde a mais simples até às mais complexas.
Por exemplo, a criança, vendo os desenhos, ilustrações ou imagens dos livros de histórias e ouvindo alguém explicar ou narrar aquilo que ela está vendo (ou ser levada a explicar), começa a aprender, inconscientemente, que o mundo existe a partir de uma nomeação...Nesse sentido, podemos generalizar que o ponto de partida para se chegar a determinado conhecimento é nomear-se o objeto ou o fenômeno em foco.
Esse fenômeno torna-se cada vez mais importante no contexto do mundo atual, na medida em que sabemos que as novas gerações que têm chegado (e continuarão a chegar) são os mutantes culturais. A eles cabe descobrir os verdadeiros novos valores em meio ao caos e a nomeá-los (criá-los) para que um dia (quando?) uma nova civilização seja construída.
E nesse sentido, a literatura é um dos grandes meios de busca e conhecimento, pois além de ter como matéria prima a palavra (aquilo que define o humano em relação ao animal) ela é o ato criador que transfigura a realidade da vida em arte, ou talvez, o gesto que transforma o efêmero em eterno.
w A Literatura como antídoto à robotização
|
“Estamos no limiar de uma era, na qual a capacidade de ler e escrever talvez não seja suficiente para definir a alfabetização. Ser alfabetizado poderá em breve significar a capacidade de lidar com o computador, manipulá-lo e nele, armazenar informações.” (Benjamin Compaine. 1983) |
|
| “...a imaginação, a fantasia (presente nos Mitos e na Literatura) é acima de tudo a atividade criativa na qual podemos encontrar as respostas para todas as perguntas que podem ser respondidas: ela constitui a origem de todas as possibilidades do viver.” (C.G. Jung. 1962) |
Nesses dois textos, temos um dos grandes desafios desta nossa época em mutação: o poder uniformizante da tecnologia/informática em confronto com o poder libertário e criador da mente humana. Ou, em outros termos, a ameaça de robotização ou automação dos indivíduos, em face da expansão acelerada do sistema cibernético em nosso cotidiano. Sistema que, por um lado, é altamente positivo (pelo que oferece de progresso, dinamismo social, comunicação, conforto, etc.) e, por outro, altamente ameaçador, no sentido de exigir do indivíduo a obediência rigorosa às suas normas, regras ou leis, sob pena de ele se ver excluído da engrenagem social.
Diante, pois, da indispensável adesão dos indivíduos à instrumentalização tecnológica que os tornará aptos para atuar na sociedade, faz-se urgente que a escola se empenhe em estimular nos alunos a conquista de sua auto-consciência como ser humano e a sua consciência crítica globalizante, que só a linguagem da cultura humanista e da arte proporcionam. A escola precisa formar “programadores” e não, apenas, “digitadores”.
É preciso encarar de frente o fato de que a evolução da humanidade está visceralmente ligada à revolução informática. Por mais que os “apocalípticos” (como o diria Umberto Eco) discordem frontalmente da cultura-de-massa e denunciem a ameaça de desumanização representada pela máquina, ou vaticinem a próxima e total decadência da cultura e da civilização herdada, há uma evolução/revolução em marcha. Daí a urgência das discussões e medida que a escola vem tomando, para que paralelamente se processe também uma revolução da própria mente humana, –revolução latente em todo esse processo caótico de destruição/construção/evolução (impulsionado pela expansão da informática) que transformou o nosso planeta numa “aldeia global”. (MacLuhan)
Em face dessa revolução em processo, Compaine (entre outros) levanta a hipótese de passarmos, muito em breve, a entender “alfabetização” ou a habilidade de ler/escrever, como a capacidade do indivíduo em ter acesso, manipular e estocar informações num computador. Tecnologia e humanismo entram em confronto. É nesse ponto de confluência que surge a polêmica, pois é fenômeno que extrapola do mero campo tecnológico para adentrar o ético. Sem pretendermos adentrar por essa polêmica, concluímos estas reflexões, enfatizando o fato de que é preciso neutralizar a ameaça de robotização que paira sobre os indivíduos, neste cyberespace. E um dos meios para essa neutralização está, sem dúvida, na literatura/leitura que vem sendo descoberta (ou redescoberta) como um “exercício de viver” ou como fecundo instrumento de “formação das mentes” e de conhecimento de mundo, da vida. Na “aldeia global” (o mundo sem fronteiras, monitorado pela imagem, som, velocidade, visualidade, virtualidade...), a literatura/leitura tem uma tarefa fundamental a desempenhar...
* * *
BIBLIOGRAFIA
COMPAINE, Benjamin. “The New
Literacy” in Science Digest.
Ny, march, 1983.
HANNA, Thomas. Corpos em revolta
(A Evolução-revolução do homem século XX em
direção à Cultura Somática do século XXI) (trad. Vicente Barretto)
RJ, Ed.MM, 1972
JUNG, C.G. Símbolos de transformación. Buenos Aires, Paidos, 1962.
MORIN. Edgar. Cultura de Massas
no século XX/O Espírito do tempo.
(trad. Maura Ribeiro Sardinha) RJ, Forense, 1962
________ Articuler
les savoris. Paris, Centre National de
Documentation pédagogique. 1998